UMA CÂMERA NA MÃO, UMA IDÉIA NA CABEÇA
Mesmo numa terra onde tudo é caos, desordem, violência, ignorância e pobreza, às vezes brota uma linda flor no meio do nada. É o caso do Intel Computer ClubHouse, um projeto de inclusão digital que foi implantado no Jardim Conceição há mais ou menos 2 anos. Trata-se de uma gota no oceano, um espaço fantástico, super moderno, com equipamentos de alta tecnologia, tudo de primeira linha, para que jovens da periferia possam usar a internet, participar de oficinas de vídeo, redação, produção, tudo sem burocracia, sem gente estúpida para impedir o acesso aos equipamentos (coisa muito comum nas nossas faculdades fajutas, onde se paga para ter tal acesso).
“Quem faz é uma molecada do bairro que topou o desafio: Franklin, Dudu, Valdenir, Michel, Estopa e Jackson... Havia uma câmera de vídeo lá, por isso resolvemos fazer o documentário... Mas antes de começarmos a gravar, entraram no lugar e levaram o equipamento... ficamos um tempo só discutindo o roteiro e tal”, explica Plínio Rodrigues, coordenador do projeto. Isso só prova que gente boa existe, o que falta é incentivo. “Os moleques estão com muita vontade... Apesar de nunca terem segurado uma câmera nas mãos estão conseguindo fazer um trampo do caralho, sem frescura... sem nenhuma técnica apurada de vídeo nem nada... uma câmera na mão e uma idéia na cabeça...”
Filhos do povo que ocupou terras em Osasco faz documentário revolucionário mostrando nossa história que nunca foi contada.
Quando perguntam qual é a história de Osasco, estamos acostumados a ouvir sempre a mesma versão do velho e caridoso Antônio Agu que construiu uma fábrica e uma estação de trem. Que tinha um velhinho bonzinho chamado Pedro Fioretti que era dono de uma “pharmácia”. Que tinha um certo Dimitri Sensaud de Lavoud que fez um avião e voou no centro de Osasco. Que depois viramos um bairro esquecido de São Paulo, transformado em município após um polêmico plebiscito. (Aliás, que merda terem destruído o “Mural da Emancipação”, um símbolo cultural e histórico da cidade). Que, depois disso, passamos a eleger uma série de esforçados prefeitos, quase todos descendentes de italianos, que colocaram a cidade no caminho do progresso e da civilização. E que hoje estamos felizes e contentes, confiando no futuro mais do que nunca...Puxa, como ficar com essa versão da história e não se sentir idiota?
Um grupo de adolescentes do Jardim Conceição está fazendo um documentário ainda sem título definido que pretende mostrar como essa história de Osasco é mal contada. Segundo Plínio Rodrigues, que coordena os trabalhos ao lado do jornalista Jairo Camilo, “quem sempre está a frente da verdade é a elite... As famílias que sempre estiveram no poder estão até hoje. O objetivo é mostrar o resgate histórico, conversar com os moradores do bairro... Os mais antigos que há mais de 20 anos invadiram aquilo ali e levaram porrada da polícia. E os meninos estão entrevistando, colhendo depoimento, participando mesmo. É uma experiência e não priorizamos a qualidade das imagens nem nada e sim o conteúdo. Estamos gravando tudo em VHS. A idéia é fazer um documentário de 20 minutos, mas não é regra, pode ter mais ou menos... Temos algumas dificuldade técnicas para digitalizar esse material em VHS, mas tem uma faculdade aqui em Osasco (Fizo) que topou ajudar, abrindo o laboratório de TV para digitalizarmos as imagens e pegarmos uns toques de edição. Pretendemos terminar o vídeo até o começo de agosto, mas não há uma data marcada”. Trata-se de um feito inédito, um acontecimento importante, que pode ajudar a elucidar muito da nossa história. Ninguém merece um povo que não conhece sua própria história. A produção não tem tido dificuldades para encontrar pessoas que queiram falar. Pelo contrário. Percebe-se que todo mundo tem uma história para contar. Mas se fosse para ficar só nos depoimentos, o resultado seria maçante. Então, eles tiveram uma grande sacada de mesclar tudo isso com imagens de arquivo, descoladas com padres que foram ligados ao movimento de ocupação da terra, material inclusive que repercutiu na mídia na época. Tem muita coisa interessante: imagens de negociações com o prefeito Parro, imagens da PM descendo o cacete na galera a mando do Rossi, o mesmo xingando todo mundo de canalha, “enfim, material que mostra bem como essa história de Osasco é mal contada. Quem sempre está à frente da verdade é a elite”.
Veracidade teve acesso a uma fita bruta contendo uma reunião realizada em 1988 no gabinete da Prefeitura com o então secretário de habitação José Paschoal Filho e representantes de uma cooperativa habitacional que estavam negociando a ocupação da terra: Sônia Rainho, João Paulo Cunha... É interessante observar que os personagens sempre se repetem no final das contas, só mudam de posições. Por exemplo, João Paulo Cunha: de deputado esquerdista radical que falava “popriedade” ao invés de propriedade, se tornou ex-presidente da Câmara envolvido em denúncias de corrupção. José Paschoal virou presidente da OAB. Sônia Rainho virou vereadora. Nesse vídeo, o que mais se vê é fumaça de cigarro. Até um militante bêbado se manifesta: uma cena realmente tensa. E o fato de a qualidade da imagem estar precária devido à ação do tempo é completamente perdoável posto que esse vídeo ficará registrado como um documento histórico e que, se não fossem usadas essas imagens velhas no vídeo, era capaz delas mofarem de vez e não cumprirem seu papel na sociedade. Esperamos que esse vídeo seja bem divulgado e que alcance o maior número de espectadores. Afinal, uma cidade não pode ficar só apanhando na luta pelo conhecimento. Podem até derrubar o “Mural da Emancipação” (fala, Délbio!), mas a luta continua, companheiro, mesmo que o PT tenha ido para o lixo e que ninguém se lembre da sua própria história.
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