VIAGEM AOS ANOS 90

Puta, que correria! Não consigo parar dez minutos. Estou escrevendo e noiado que tem um editor de imagem esperando e xingando. Mas minha orelha não está ardendo ainda, devo ter três minutos... No dia do show do Primal Scream aconteceu um link psicodélico enquanto eu sonhava. Pesquisei e descobri que na mesma hora em que eu dormia em casa, rolava o imperdível show do Primal Scream no Jockey Club. O que aconteceu? Eu não sabia que o show era naquela noite, sabe como é agenda do Tim Festival, quem não foi não tava ligado de horários e datas... Mas os caras estavam no palco -- disso eu soube depois -- e eu estava tendo um dos sonhos mais intensos do ano. Estava de volta aos anos noventa, época do colegial. Vi toda a turma do curso de Redator Auxiliar da Fundação Bradesco, aquela polêmica turma, barulhenta, antenada, bem diferente da galerinha careta da faculdade. Sempre fui um cara separado da turma, não tinha muitos amigos do colegial, mas sonhar com aquilo foi comovente. Até dói o estômago agora quando lembro o sonho, de tão nítido e nostálgico que foi tudo aquilo. E tinha tudo a ver Primal Scream com aquela época. "I´m free, you're free...", cantava Bob Gilespie, servindo de trilha para paixões frustradas, momentos de vandalismo e violência, inspiração e revolta, solidão e solidão e solidão e desejo de ser alguém que nunca seria... Porra, esse texto não acabou, mas meu tempo já era. Tchau e nunca se esqueçam dos anos noventa! Tchau nada, voltei. São quase três da manhã e estou exportando o programa "A Casa é Sua" que vai ao ar depois do almoço. Editei tudo, posso dizer que sou o departamento de censura da casa. Mas não reclamo, não. Quer trabalhar, trabalhe. Mas esses anos noventa foram mesmo muito loucos. Era moleque pra caralho, mas tinha uma pegada diferente, não gostava de nada que fosse moda. A turma toda reunida em círculo tocando Legião e eu meditando em algum esconderijo daquele verdejante lugar onde banqueiros enriquecem e bancários se escravizam...

A MTV apareceu e minha vida mudou, porque a TV mudou e minha vida era a TV e se minha vida era a TV e a TV mudou, logo eu também mudei, mas foi um processo insano de se perder e pensar que se achou e se perder de novo... Num dia eu tava com uma camisa do Nirvana, no outro eu estava com meus colegas poetas-marginais que gostavam só de MPB dos anos setenta. Numa noite eu me perdia numa balada ridícula na rua Augusta ou em alguma danceteria trash, tomando fora até não poder mais, na outra noite eu descobria a minha essência numa viagem de ácido lisérgico. Peraí, tô falando demais e vou ter que exportar mais um bloco. Quem sabe eu volte ainda hoje... Porra, e não é que eu voltei. Meu, escrever aqui é uma forma de matar o tempo. Pediu dez minutos para exportar o bloco 6. Voltando aos anos noventa, eu era apaixonado por uma garota que parecia gostar de mim no começo, mas depois acabou que não rolou nada, também nunca me revelei, mas os dois sabiam e a gente era do mesmo grupo, eu simplesmente deixei quieto e comecei a ficar um cara louco a partir de 1993. O legal do sonho Primal Scream foi que tocava essa música no sonho e, porra, todo mundo se lembra que só passava esse clipe na MTV e essa era uma música que marcava a nossa história de alguma forma, não porque ela gostasse, acho que ela nem conhecia, sei lá, mas porque no sonho essa trilha me deu uma dimensão exata do sentimento que provavelmente era amor. Mas lógico que eu era fucking nerd que passava um sábado a tarde enfiado num estúdio caseiro do Danielzinho cantando horrores, enquanto a bateria me deixava surdo. E a camisa do Nirvana era uma puta farsa, porque na verdade eu não entendia bulunfas... Colavam uns caras mais manjados e falavam -- Uh, vc tipo curte um Misfits... E eu balançava a cabeça, claro... que não. Lamentável e engraçado e nostálgico e que bom que os anos noventa foram mágicos. Tô falando aqui dos early nineties, porque rolou uma virada forte na minha da segunda metade dessa década para frente. Principalmente 96, quando meu pai morreu. Porra, vc vem nesse blog ver qual é a do Jesse e fica lendo essa embromação que eu tô escrevendo só para fazer hora e, no final, acaba pagando de psicanalista. Ok, parei, talvez eu volte ainda hoje. Credo!

Seu pai morreu

Mais oito minutos termino de exportar o último bloco para o HD. Depois vai faltar exportar o pgm inteiro para o storage. Não entendeu nada... Nos anos noventa eu também não teria como entender nada disso. Era 1996 e estava dormindo na cama da minha mãe (o filme não acabava nunca e adormeci ali mesmo). Toca o telefone e percebo que morreu alguém. Parecia ser minha irmã. Depois percebi que era meu pai. Quando minha mãe anunciou, já tinha percebido e uma espécie de piloto automático agiu neutralizando o baque por dois minutos. Na sequência, tive um disparo cardíaco, chorei um pouco, mas sou homem. E agi como tal. Providenciei a papelada para o enterro. Eu tinha 20 anos. Ele 49. Era jornalista, escritor, morava entre a Cerro Corá e a Heitor Penteado. Costumava visitá-lo nos fins de semana, mas fazia três meses que baladas com amigos vinham sendo priorizadas... Foi um choque em plenos 90 e depois ainda acabou meu namoro de 3 anos, puxa, foi um período difícil... Estava começando a ficar adulto e sentia falta do Jessão para falar o que ele achava de um monte de coisas que eu vinha descobrindo sobre filosofia, política, poesia, cultura, arte... Ficou a nítida sensação de que aproveitei muito mal nossas conversas... Bom, o bloco 7 tá lá e agora tenho que jogar tudo na rede. Será que eu volto depois? Acho que sim... O papo tá começando a ficar bom...

Calipal e campão

Meu pai morreu, me lembro de algumas coisas. De outras, não me lembro. Costumava ir ao calipal e ao campão, encontrar uns amigos para fazer um som, tomar um vinho... O campão fica no Parque Continental, onde fui nascido e criado, e é um bosque que fica ao lado de um campão de terra. De noite esse bosque fica às escuras, só com a luz da avenida 1 e o povo faz fogueira para curtir momentos dionisíacos. Tinha um pessoal da música, outro pessoal mais de teatro, gente que fez as Bacantes no Teatro Oficina. Levava umas namoradinhas para curtir e perdi a conta de quantas vezes amanheci sentado numa raiz. Amanhecemos. No Calipal a balada era mais diurna, se bem que muitas noites atravessamos naqueles banquinhos, quando ainda não existia guarita, cerca e toda essa bosta. O calipal fica ao lado do campão. Drogas ali eram uma coisa do bem. Não tinham o aspecto negativo que rola se vc se droga num bar a toa. Era tudo do verde e os vinhos, os mais vagabundos, nos transportavam para um mundo de prazer, liberdade total, música, sonho e também divagações filosóficas. A década seguia seu curso, saí da assessoria de imprensa da Prefeitura para trabalhar no jornal Primeira Hora de Osasco. Tempo de giralata com um disquinho embaixo do braço em rádios comunitárias, maior viaaaagem... Entrávamos no meu Uno e ganhávamos os restaurantes de São Paulo com o assalto cultural, dinheiro no chapéu e tudo gasto com cervejas e mais cervejas. Com meu violão compunha os hits que até hoje vc não conhece, iluminado pela aura artística do Calipal, para depois vomitar tudo nos ensaios na bat casa do Morcegão, onde cheguei a passar uma temporada... Nossa "banda" era mesmo uma bosta, mas até hoje tem gente que vem elogiar. Um negócio meio funk e eu querendo fazer experimentalismo. Os caras, coitados, querendo ficar famosos, e eu pensando na merda de Artaud: "onde cheira merda, cheira a ser..." Foram os anos noventa, cara. Bela merda. Devo estar dando traço no ibope da internet. Será que alguém leu até aqui?

A CORRERIA ESTÁ GIGANTE

 

Como no novembro de 2003, uma onda de 6 metros Pipeline de puro trabalho e, pelo menos agora posso dizer AINDA BEM. Trabalhar é muito bom e estar vivo, melhor ainda. A gente supera todas as crises e o mundo continua OK, com cada coisa no seu lugar. Também há o que está fora de lugar, mas é assim mesmo, o mundo funciona dentro de uma desordem necessária, nada que seja incômodo. Disposição é tudo o que um urbanóide precisa para enfrentar essa realidade de competições e mau caratismo. Demorou para cair a ficha, mas agora tenho certeza que quero fazer uma televisão do bem. E a única forma é nunca olhar feio para trabalho e sempre lutar por respeito e espaço. E SEMPRE, SEMPRE MANTER A CALMA. SEM TENSÃO, SEM PREOCUPAÇÃO ANTECIPADA. E good vibrations para quem entendeu ou não.

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